Assim como não se nasce homem, torna-se homem. Começamos a nos tornar homens e mulheres a partir do momento que nossos pais escolhem as cores para o nosso enxoval. Rosa para meninas, azul para os meninos. Carrinhos para os meninos, bonecas para as meninas.

Crescemos ouvindo repetidas frases que moldam nosso pensamento e percepção sobre nós mesmos e sobre a maneira como devemos nos portar diante de regras de convivência jamais escritas em nenhum manual, mas reiteradas pela família e pela sociedade.

“Menino não leva desaforo para casa!”

“Menina tem que ser delicada.”

Essas são informações que recebemos o tempo todo ao longo de nossa infância, adolescência e juventude e que reproduzimos de forma automática quando nos tornamos adultos.

Em 1949, Simone de Bouvoir, filósofa feminista existencialista, lançou “O Segundo Sexo” que imortalizou a frase:“Não se nasce mulher, torna-se mulher”

“Não se nasce mulher, torna-se mulher.”

Oitenta e um anos depois tenho aqui minhas dúvidas se a afirmação é clara para todo mundo. Acredito que não. Pode até ser vista com preconceito por muitos. No entanto, apenas explicita que o “Ser mulher” é muito mais uma construção social do que uma questão biológica. Afinal, o que determina que as mulheres são delicadas e os homens mais resistentes e duros? Por que a responsabilidade de cuidar da organização da casa e da alimentação da família é sempre prioritariamente atribuída às mulheres? Por que o papel de prover a família financeiramente é um peso prioritariamente dos homens? Por que mulheres são frágeis e homens não choram? Por que eles são vistos como mais equilibrados e, portanto, mais aptos a ocupar lugares de poder? Todas essas máximas reproduzidas incansavelmente reduzem a infinita possibilidade de sermos mulheres e homens que vão além de rótulos pré-estabelecidos.

O documentário “Precisamos Falar com os Homens? — Uma jornada pela igualdade de gênero” trata disso. É fruto de uma pesquisa nacional feita em parceria entre a ONU Mulheres, Papo de Homem e Grupo Boticário que entrevistou 20 mil pessoas. O trabalho comprovou o que já sabíamos: os homens também são vítimas nesse jogo. Mas, para não “frustrar” expectativas sociais, reprimem sentimentos, sentem-se sozinhos e pouco à vontade para manifestar sua delicadeza e amor. Afinal, para ser homem é preciso ser durão.

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O machismo é o ato de ser contra a igualdade entre homens e mulheres e não é exclusividade do sexo masculino. E até que ponto estamos cuidando para não reproduzir esse conteúdo equivocado que nos trouxe até o presente momento com nossos garotos? É aí que está a grande transformação. De nada vai adiantar a gente ir às ruas, falar da violência que mata 1 mulher a cada 7 horas no país, de falarmos nas empresas sobre a necessidade de dar oportunidades iguais para as mulheres, que recebem salários 30% menores que os dos homens. De nada vai adiantar tudo isso se continuarmos dando tarefas domésticas só para as meninas e não ensinando para os meninos que a obrigação de lavar a louça depois do almoço de domingo e arrumar a própria cama também é deles. De nada vai adiantar tudo isso se continuarmos a incentivar os meninos a “pegar” muitas meninas e as meninas a “se preservarem” para o casamento. Há um descompasso entre o que se ensina para um e para outro.

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Se quisermos uma sociedade de princípios verdadeiramente igualitários, precisamos mudar padrões que vem sendo reproduzidos há séculos e que estão na origem da diminuição do valor da mulher enquanto profissional e ser humano e na opressão dos homens enquanto seres plurais e únicos, que choram, que sentem medo como as mulheres e que podem escolher o papel que desejam exercer na sociedade.

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Por tudo isso, nesse Dia da Mulher, agradeço aos homens…

  1. Que combatem atitudes que nos reduzem a um modelo pré-estabelecido;
  2. Que usam seu lugar de privilégio para levantar uma bandeira em favor delas;
  3. Que não riem de piadas sexistas;
  4. Que não interrompem uma mulher enquanto expõe seu ponto de vista;
  5. Que não chamam mulheres de “loucas”;
  6. Que lavam a louça e são companheiros na criação dos filhos;
  7. Que não “ajudam” nas tarefas domésticas, mas dividem por igual o que é obrigação de todos que vivem sob o mesmo teto;
  8. Que valorizam a ideia de uma mulher no ambiente de trabalho;
  9. Que repreendem comentários abusivos de colegas;
  10. Que nos elogiam pelas nossas capacidades em vez dos atributos físicos.

Obrigada pelas dezenas de mensagens cor de rosa falando da força e da delicadeza femininas, das flores e textos que exaltam a beleza da mulher.

Mas presente mesmo é a mudança de padrões.

Presente mesmo é saber que os homens já estão acordando para o fato de que a luta pela equidade também é deles e que quando atingirmos essa tão sonhada condição, todos sairão ganhando. 

Amanda Costa gosta de flores, mas prefere respeito.


Amanda Costa é jornalista, Partner at Group Alto Tietê e Chief Kindness Officer Caos Corporativo.