O objetivo deste artigo não é provocar uma insurgência contra diretores de empresa. Mas sim, despertar uma percepção se temos que evoluir neste sentido.

Você acredita que brancos devem ter mais direitos que negros? Homens devem ter mais direitos que mulheres? Então que tal fazermos uma provocação correlata. Faz sentido que diretores de companhia tenham tratamentos diferentes de colaboradores? Adoraria saber sua opinião. Vamos lá. Elenquei abaixo algumas situações que despertam nas pessoas dúvidas se realmente tudo isso faz sentido. Alguns aspectos remontam o século passado, e outras, o retrasado.

Título de nobreza

Virou Diretor? Pois bem, agora você passará a ser chamado de Doutor! Dra. Fulano, Dra. Beltrana… O título somente é auferido para pessoas que foram aprovadas em curso de Doutorado mas há também a cultura popular (hoje bastante questionada) e centenária da alcunha para médicos, dentistas e advogados, mesmo que não sejam doutores de fato. Mas em algumas empresas o título é impostado para deixar claro a diferença entre o Olimpo e os reles mortais que estão nos outros cômodos da pirâmide hierárquica. Em um mundo pós covid, onde tudo mudou, convoco você, diretor de grande empresa que é chamado de doutor a responder assim:

Não me chame de Doutor! Me chama de “fulano”. Ninguém é doutor aqui, e nem mesmo eu. O mundo corporativo precisa de mais simplicidade e menos ostentação.

Vagas de estacionamento privativas

Já entrei em diversas empresas e vi placas que anunciam a palavra “privativo”. Outras deixam claro  “Diretoria”. Todas elas são privilegiadamente escolhidas para estarem o mais perto possível da entrada da empresa. Presidentes e Vice presidentes têm vagas mais perto da entrada, Superintendentes, que estão em “castas” mais baixas, têm vagas mais distantes. Funcionários não têm vagas privativas. Basta subir um drone no estacionamento para verificar a pirâmide hierárquica desenhada ali. Faz algum sentido?

Diretores precisam andar menos do que funcionários? São mais ocupados do que os demais e não merecem perder tempo procurando vaga para estacionar? Alguém pode explicar isso?

Banheiros e elevadores privativos.

Isso é mais comum do que você imagina. Alguns altos cargos de empresas possuem o benefício de terem banheiros exclusivos, com o descalabro de possuírem uma rotina de limpeza mais recorrente, papel higiênico mais perfumado, cremes para as mãos e máquinas engraxadoras de sapato. Funcionários comuns não entram nestes banheiros pois podem ter hábitos menos higiênicos do que diretores, ou talvez possam se chocar com a informação de que um diretor também faz numero 2. Pouca gente sabe, mas fiz faculdade de direito. As poucas vezes que fui ao fórum, em minha vida, vi que existia uma entrada exclusiva para advogados. Soube que no mesmo fórum existe (ainda) um elevador privativo para juízes e membros do ministério público.

Isso corria na África do Sul, com elevadores separados para brancos e negros. Setor público e privado precisam acordar para esse velado Apartheid corporativo.

Planos de saúde mais parrudos

Em algumas empresas diretores podem acessar hospitais mais bacanas do que seus funcionários. Apesar da lei proibir esse tipo de discriminação, muitas empresas acharam um caminho de permitir que seus diretores pudessem ter acesso a um plano mais chique do que os outros colaboradores. Quem pensou em diferenciar esse benefício deve ter pensado: “Pode haver um trauma se alguns diretores encontrarem um funcionário no pronto socorro pegando a mesma senha”.

Por que alguns cargos podem ter um quarto privativo no hospital e outros precisam ficar em uma habitação coletiva?

Motorista

Alguns cargos em empresas ainda possuem esse benefício . Eu te pergunto, não seria mais fácil pagar uma auto escola e aprender a dirigir? Fiz essa pergunta uma vez a um RH que me respondeu. – “Mas eles sabem dirigir, uai!” – Então por que têm motorista? Eu te pergunto: Por que um Diretor de empresas precisa de motorista? Para poder responder mensagens no Whatsapp no trajeto até sua casa? Faz sentido uma empresa ainda adotar esse tipo de benesse para pessoas que têm idade para dirigir, têm discernimento espacial e possuem carteira de motorista?

A grande verdade é que ninguém sabe explicar, de maneira muito convincente por que alguém ainda precisa de motorista. 

Sala do Diretor

Talvez um dos artefatos corporativos mais emblemáticos para diferenciar o topo da base. A justificativa para isso ocorrer, geralmente, é de que o diretor precisa de privacidade para discutir os temas da empresa. Mas se esquecem que hoje, é muito fácil termos conversas reservadas com qualquer pessoa. Diversas empresas pregam um sentido de igualdade entre seus colaboradores, mas de maneira contraditória permitem salas de diretores com espaços maiores do que do um apartamento (junto como tal banheiro privativo, rs). Alguns têm até sofá, samambaias, mil porta retratos, geladeirinha colorida, quadros na parede. Aliás, alguns detalhes sobre a análise dos porta-retratos dizem muito sobre os donos da sala. A maior parte das fotografias fica virada para quem é o convidado da sala. Fotos esquiando com a família, andando a cavalo, sentados no jetsqui ou mesmo ao lado da Torre Eifel são artefatos indiretos de cultura para deixar claro discrepâncias sociais e hierárquicas.

Empresas que possuem maior consciência social de sua relevância corporativa precisam repensar radicalmente esse formato.

Provocações feitas. Ao meu ver há uma culpa coletiva para que situações como essa ainda ocorram. Alguns RHs não têm coragem de propor esse tipo de revisão de benefícios por serem extremamente subservientes. Outros líderes ainda defendem esse tipo de diferenciação, que contraria os tempos atuais e remonta à época do feudalismo, onde havia a Casa Grande e a Senzala. E olha que nem falamos sobre os tipos de cadeiras, crachás diferentes, o fato de diretores poderem viajar em classe executiva, não precisarem dividir quartos de hotel com colegas ou mesmo das políticas de stock options.

Tenho muitos amigos diretores de empresas se incomodam com tais artefatos. Lutam o bom combate para que o C-Level reveja esse tipo de mentalidade ultrapassada. Mas o privilégio é ruim até que você seja o privilegiado. Alguns Diretores são ousados o suficiente para pedir para cancelarem seus benefícios e serem tratados da mesma forma que seus liderados. Mas outros ainda gostam de ostentar tais diferenciais.

O mundo está evoluindo rapidamente e temas como esse, um dia, serão tratados com surpresa quando os executivos da próxima geração souberem como trabalhávamos hoje.

Alberto Roitman é uma alma livre e Chief Chaotic Officer na Escola do Caos.   


Fonte: Linkedin


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